A autobiografia de Rita Lee é um manual de como envelhecer com ódio

Rita e “ozmano”
por Kiko Nogueira, DCM
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A autobiografia de Rita Lee é uma lição de vida no sentido de como um coração pode virar um pote até aqui de mágoa, ressentimento e covardia ao envelhecer.

Rita é um caso pedagógico sobre a arte de se diminuir tentando crescer na foto. Ela renega com todas as forças a melhor banda de rock do Brasil, os Mutantes, da qual foi fundadora. Ao mesmo tempo, procura dar a sua carreira solo, de enorme sucesso comercial, o prestígio que não obteve.

Entre a ironia e o desprezo, chama os irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista, amigos de juventude, de “ozmano”. O ódio a leva a preferir a fofoca em detrimento da historiografia musical. Ficamos sabendo que os três assinavam juntos a autoria das canções, que a letra da linda “Balada do Louco” é dela, e pouco além disso.

A preguiça para dar um pouco da ficha técnica daqueles discos é substituída pelo vigor quando se trata de destruir os ex-parceiros. Ela se deleita contando que os membros da família Baptista “sofriam de rinite, respiravam pela boca, babavam muito e cuspiam quando falavam.”

“Serginho, o caçula gordinho, apelido Pipa, não completou o ginasial, nunca leu um livro na vida, raramente escovava os dentes, protótipo do caçula pentelho, o Sancho Pança do mano mais velho. Em compensação, tocava guitarra com incrível rapidez e precisão, algo circense até, eu diria 95% técnica e 5% alma”, diz.

Reserva a parte mais sombria de sua bile para Arnaldo. Paradoxalmente, dá uma medida do espaço que o baixista e tecladista, espírito dos Mutantes, gênio trágico do rock, seu ex-marido, ainda ocupa em sua vida.

Ela sentia “nojinho das babas dele” e só aceitou se casar com “Loki”, como o chama, porque a mãe “olhava feio para os pernoites na Serra da Cantareira”.

Considera-o um farsante, um empulhador, e o massacra.

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Arnaldo, que abusava das drogas, foi internado numa clínica depois de tocar fogo em sua casa. No dia 31 de dezembro de 1982, aniversário de Rita, jogou-se da janela do quarto andar, teve traumatismo craniano, ficou dois meses em coma e nunca mais foi o mesmo.

As sequelas são visíveis. Para Rita, porém, é tudo parte de uma fraude. “Loki vendia sua imagem de coitadinho, tão apreciada pelas viúvas e críticos de música”, afirma. 

Para provar esse ponto, Rita lhe dá um trote.

Liga para ele, fazendo-se passar por secretária de Kurt Cobain. Ele atende “sem gaguejar e sem o menor sinal de retardamento mental”. Ela: “Arnaldo, Arnaldo, você não me engana, esse seu papel de aleijadinho de araque tá muito canastrão”.

O “diagnóstico” de Rita Lee é perverso não apenas com Arnaldo, mas com quaisquer portadores de deficiência mental — ou, como ela prefere, “retardados”.

Ela sabe que pode humilhar Arnaldo e Sérgio porque eles não farão nada, ao contrário de outros personagens que chuta e cujo nome não declina por medo de ser processada. A empresaria Mônica Lisboa, por exemplo, é apelidada de “Governanta”.

Arnaldo não assume sua condição e quem está em torno dele permanece imóvel. Ele e o irmão, que estão rompidos, têm menos dinheiro, um receio inexplicável das “conexões” de Rita e não acionarão um advogado. Sérgio chegou a escrever um post anódino no Facebook, que apagou pouco depois.

Rita não vai mudar o fato de que os Mutantes são reconhecidos fora do país e ela, justa ou injustamente, não. Em fevereiro, a revista New Yorker os colocou no centro de uma “subversão psicodélica”. O New York Times já registrou o fenômeno cult com admiradores como Beck, Nelly Furtado, David Byrne, Sean Lennon, Devendra Banhart e o falecido Cobain.

Ela prefere tentar matar esse pedaço de seu passado a golpes de canalhice. Vai ficar mais algumas semanas na lista dos mais vendidos com seu manual de como destruir reputações e pisar em quem não sabe se defender e ganhar uns bons trocados pelo serviço.

Rita Lee, a rainha do rock nacional, escreveu um livro que tem a ver com qualquer coisa, menos com rock.

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