A inveja cria um abismo entre o invejoso e o invejado: o sucesso do segundo é o fracasso do primeiro

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por Rebeca Bedon, Revista Bula

Acho que vou explodir! Minha euforia não cabe no Maracanã. Este momento é tão especial que me sinto transbordando sensações boas. Persistência. Fé. Superação. Gratidão. Hoje não quero relembrar tristezas e dificuldades. Minha vontade é compartilhar todo sentimento bom que surge dentro de mim.

Ligo para os amigos mais próximos, posto fotos no Instagram e envio mensagens para os meus contatos virtuais: “Consegui!”. Teve gente que comemorou junto comigo, algumas pessoas enviaram palavras de carinho e outras curtiram o que escrevi. Mas um breve comentário, vindo de alguém particularmente próximo a mim, prendeu a minha atenção: “Inveja branca!”.

Inveja branca? Nunca entendi direito o que é isso, apesar de dizerem que é uma inveja do bem. Entretanto, não consigo ver nenhuma benevolência nesse sentimento, e falo isso com propriedade: já senti inveja (sem saber que a sentia, até descobrir como aquilo me corroía por dentro).

O ser humano tem o costume de viver insatisfeito. Ao invés de enxergar a si mesmo e comemorar as suas próprias conquistas, fica de olho na felicidade do vizinho — como eu, tempos atrás, jovem e imatura, com tantas coisas boas acontecendo na minha vida, dava demasiada atenção àquilo que ainda não tinha. Era como se vivesse em constante saudade do que poderia ter sido e não foi (e isso fazia com que minhas realizações deixassem de ter tanta importância).

Após tropeções, choros e ressacas, finalmente percebi que o problema não era a felicidade alheia, mas eu mesma. Eu e o meu vazio incompreendido. Aquele buraco que me destruía e não me permitia ser verdadeiramente feliz por minhas próprias conquistas. É por isso que se realmente existisse uma maneira de sentir uma inveja “boa”, não haveria silêncio no lugar de abraços; assim como, também, seria fácil para a pessoa falar que está feliz pela conquista do amigo (em vez de confessar indiretamente, pela “inveja branca”, que queria estar no lugar dele). A inveja cria um abismo entre o invejoso e o invejado: o sucesso do segundo é o fracasso do primeiro, porque a inveja é inimiga da paz de espírito e comparsa da solidão. O invejoso, ao não conseguir demonstrar alegria pela felicidade do outro, sente mais angústia. Ao invejado, resta o pesar pela pessoa querida que não consegue separar um sentimento tão humano da ingrata dor de cotovelo.

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Hoje eu não queria relembrar tristezas e dificuldades. Entretanto, a “inveja branca” que alguém sentiu de mim me levou de volta àquele tempo em que eu vivia na penumbra de mim mesma, anulando meus desejos em derrotas, medo e insegurança — até a dor do vazio fazer sentido: “as repostas para suas perguntas sempre estiveram perto de seus olhos internos, à espera da sua coragem de mudar”.

Quando aprendemos a olhar com mais atenção o vazio que surge, indiferente à nossa vontade, compreendemos o que nos falta e suportamos a dor que nos distancia dos outros e de nós mesmos.

Também perdoamos mágoas e culpas que nos prendem aos sentimentos mais lúgubres da alma. De encontro à nossa própria luz, deixamos de viver na escuridão da inveja; e isso é uma sensação tão libertadora que somos preenchidos pela felicidade, nossa e alheia!

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