A verdade é uma só: apenas os tolos acreditam em Deus

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por Larissa Bittar, Revista Bula

Eu acredito. Acredito em uma força que rege o mundo e preenche com esperança vazios incômodos. Alguns chamam de Pai, outros de Alá, Mentor, Criador. Há quem o veja como energia e os que o enxergam com barba e manto celestial. Os que rezam curvados diante de altares e os que transformam gestos cotidianos em oração. Não considero tolice nenhuma das opções. Aprecio os que buscam coragem na fé se desvencilhando do racionalismo sufocante por meio de crenças que tornam a vida suportável. O título foi só para chamar atenção. Eu gostaria de falar sobre outra coisa: o insuportável mimimi feminista que tem me tirado do sério.

Na verdade não vejo como mimimi. Acho a luta justa. Reconheço o esforço de todas que batalham para equilibrar direitos e abrir espaços blindados pelo preconceito. Finalizei o parágrafo anterior chamando de mimimi só pela polêmica mesmo. Uma tentativa de manter vocês um pouco mais comigo antes de desistirem do texto. Geralmente não dá certo. É provável que a maioria tenha dado adeus ao tomar conhecimento do meu suposto ateísmo exposto no título. Alguns podem ter me xingado pela blasfêmia. Mal sabem, ao contrário dos que se dispuseram a ir além do enunciado, que sou adepta de velas, novenas e sinal da cruz ao acordar.

Para os que foram um pouco adiante do título mas deram no pé antes da vigésima linha eu sou uma carola machista. A vocês, guerreiros, que permanecem aqui e já me conhecem melhor que os leitores desistentes, falo um pouco mais sobre mim: adoro uva passa no arroz, sou canhota, tenho medo de palhaço e procuro não julgar o livro pela capa, a paisagem pela foto e os textos pelas três primeiras linhas. Depois de um certo tempo a gente aprende que essa história de que a primeira impressão é a que fica é bobagem das grandes. É preciso esmiuçar (pessoas, ideias, lugares) para então dizer algo a respeito. Mergulhadores sabem mais sobre o mar do que aqueles que só molham os pés.

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Mas sejamos francos: esse negócio de se aprofundar não combina com o tom imediatista que rege os tempos vigentes. A gente tem pressa. Sobretudo para opinar. Deixa eu falar logo, reclamar logo, expor logo minha perplexidade. No mundo das impressões apressadas, a crônica que falava sobre amor, escolhas e vontades ganha contornos de apologia ao aborto. O relato sobre a importância de valorizarmos a juventude e o tempo que escorre pelas mãos, é visto como desprezo à terceira idade. A ideia central estava ali, a dois minutinhos do título, ansiosa por ser notada. Com um pouco de disposição e paciência o indignado poderia perceber-se equivocado. Mas há prazer na indignação precipitada. É ela que faz o peito palpitar, entusiasmado pela oportunidade de ser combativo.

Lembro-me bem quando criança, sentada sob a janela da vizinha rabugenta, sentir pedrinhas caindo sobre minha cabeça. “Louca, bruxa, ridícula”, gritei antes de enxergar as balas embrulhadas em celofane espalhadas pelo chão. Ela queria bandeira branca. Meu ímpeto raivoso não me deixou perceber isso a tempo de frear a ofensa. Faz parte. É assim no dia-a-dia, é assim nas redes sociais. Julgamentos impulsivos aliados a interpretações preguiçosas. E com que moral eu, que vejo filmes pela metade e falo mal de comidas que não provei, posso reivindicar que acompanhem as crônicas até os últimos caracteres para que então seja feito um juízo de valor? Fidelidade, parceria e apreço não se cobra — nem no amor nem em sites populares. Aos que chegaram até o fim (beijo mãe) meu profundo agradecimento.

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