‘Brasil tem mostrado que somos inquilinos nesta terra’

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Por Fernando Horta, em seu Facebook

Somos inquilinos desagradáveis.

Desde 1500 os colonizadores se esforçaram para demonstrar o quanto eram inconvenientes as pessoas desta terra. Mais de 500 anos depois, as elites deste país seguem o mesmo roteiro.

São inúmeros os depoimentos da época colonial mostrando o desconforto dos invasores com os “modos”, as “crenças” e a forma de vida das populações autóctones. Nem os jesuítas escaparam desta sina. Os papeis morais do povo civilizado e do selvagem mal tolerado continuaram existindo pelo Brasil Colônia. As populações escravas negras transplantadas, os índios e populações pobres foram sendo colocadas nesta antinomia.

A existência destas populações era uma concessão das elites armadas e ricas. O direito de alta e baixa justiça, por exemplo, vigorou em cortos lugares do Brasil até meados do século XVIII oficialmente. Matar ou deixar viver, até hoje, é privilégio de elites burocráticas e seus capangas armados (públicos ou privados), pelo que as populações da periferia, sobretudo as negras, devem agradecer diariamente.

O nível de concessão dos direitos vai alargando conforme a proximidade com os centros capitalistas brancos. Uma mulher negra nos confins deste país não tem o direito sequer ao seu corpo. Um homem branco, doutor em uma capital, ainda que sem muitas posses ou finanças tem o seu corpo respeitado. Seus direitos políticos, contudo, nem tanto. Se as populações brancas e letradas receberam o direito de não serem mortas como moscas, não serem alvo de desconfiança de capangas fardados, não recebemos, ainda, o direito de sermos ouvidos politicamente.

E assim se organiza o Brasil, com os senhorios do poder delegando círculos de direitos que criam diferentes tipos de cidadãos. Desde os mais baixos, que devem ser felizes pela “oportunidade” de trabalharem, reproduzirem-se e tentar sobreviver, até os mais elevados (brancos, heterossexuais com ensino superior em áreas urbanas) que por perceberem a distinção com os de escala menor acreditam-se “cidadãos”. Os donos do país permitiram que tivéssemos o respeito aos nossos corpos e uma certa liberdade de expressão, mas isto não nos faz “cidadão”. Do médido chamado de vagabundo pelo Ministro da Saúde, passando pelo professor universitário que tem sua carreira desmontada pelo atual governo, chegando até o advogado que se torna um coadjuvante quase sem expressão de um sistema jurídico burocrático-nobiliárquico, todos somos inquilinos neste país. Mal aceitos.

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Ainda dizem que somos “vagabundos” (médicos), “aproveitadores” (professores) ou “desrespeitosos e desnecessários” (advogados) utilizando-se das mesmas palavras que os conquistadores usaram contra os índios e negros no período colonial. Os direitos são suprimidos, a cidadania interditada, a violência exacerbada sobre todos. Não podemos ver separação entre nossa luta pela cidadania plena e a luta por cidadania mínima das populações marginais. A Casa-Grande continua nos vendo – a todos – como figuras indesejáveis. É claro que uns mais suportáveis que outros, desde que todos reconheçamos nossos espaços. Desenhados estruturalmente desde há muito, e que não ousemos criticar ou protestar. Homem branco, com boa formação não protesta. Aceita as migalhas que oferecem e luta “para ser melhor”.

O Brasil tem mostrado que somos todos um “bando de indesejáveis”. Somos inquilinos nesta terra, vivendo da boa vontade dos donos do poder. Desde sempre.

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