Corrupção no Brasil: ‘Sociedade tem que mudar valores’

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Da Agência Sputinik

A corrupção é hoje a maior preocupação dos brasileiros, ultrapassando questões importantes como a violência, o desemprego e a qualidade dos serviços públicos. A conclusão é de pesquisa do Instituto Ipsos realizada em 26 países, incluindo o Brasil.

O levantamento mostra que para 60% dos entrevistados no Brasil a corrupção envolvendo empresas e Estado é o principal desafio hoje do país. Os demais assuntos apontados na enquete foram violência (47%), desemprego (45%), saúde (44%) e educação (26%). No mundo, o desemprego (38%) foi o tema apontado como o de maior preocupação.

Comentando a pesquisa da Ipsos, Ricardo Ismael, cientista político e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), diz que a sondagem está em linha com as realizadas desde 2015 que já davam a indicação que a corrupção já vinha sendo a maior preocupação dos brasileiros. Para o especialista, as investigações da Lava Jato têm atingido o sistema político-partidário e as empresas recebendo muito espaço na mídia e impactando o grande público.

“Os brasileiros sabem que existem muitos problemas, principalmente nos serviços sociais, a questão da violência, problemas sérios em função da crise econômica, mas mesmo assim há uma percepção de que a gravidade da corrupção precisa de algum tipo de mobilização da sociedade, das instituições de investigação e do poder judiciário para que a gente possa seguir um outro caminho. De alguma maneira, a corrupção acaba se relacionando também com os serviços sociais, porque escoam pelos ralos da corrupção os recursos que vêm dos impostos”, observa o cientista social. Para ele, o brasileiro finalmente uniu esses dois links, ou seja, que a corrupção está ligada a vários problemas não resolvidos no Brasil e essa escala chegou a um nível muito elevado.

Ismael diz que a ciência política tem que se dedicar à questão das instituições, discutir os mecanismos de controle que ajam de forma preventiva, e nesse aspecto ele ressalta a importância do papel dos Tribunais de Contas, que não devem ser figurativos e tentem auditar as questões ligadas ao poder executivo, como contratações e licitações. O professor lembra que, a partir da Constituição de 1988, houve um fortalecimento do Ministério Público, o que permitiu um novo fôlego na abrangência e na qualidade das investigações, que devem ser acompanhadas pelos trabalhos de órgãos como a Receita Federal e a Polícia Federal. Já o judiciário precisa mostrar mais celeridade, principalmente por que a demora dos julgamentos, em especial para quem tem foro privilegiado, acaba muitas vezes com a prescrição do crime.

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Vaz admite que uma das molas mestras para o combate à corrupção no Brasil depende da própria sociedade, que deve mudar seus valores e se mostrar intolerante com a continuação das práticas de corrupção. Ele admite, porém, que, como toda mudança de valores, isso não será fácil e dificilmente alcançado antes de uma geração.

“As leis e as instituições fazem seu papel, mas a sociedade precisa ficar atenta e ver quem realmente merece o seu voto e quem pode exercer cargo público. Essa crise está mostrando que há necessidade de uma renovação não apenas de lideranças, mas de valores”, diz Ismael.

Reconhecendo que a compra de voto e o voto de cabresto ainda são uma triste realidade no país, o professor da PUC-RJ lembra que desde 2000 tais práticas começaram a ser reprimidas. Primeiro, no início do ano 2000, quando a sociedade apresentou ao Congresso uma proposta que acabou criando a Lei da Compra de Votos, pela qual um parlamentar ou executivo (prefeito, vereador) pode ser cassado se for comprovada prática de abuso econômico. Depois com aprovação da Ficha Limpa.

“A lei e a Justiça Eleitoral vão ficar enxugando gelo, se a sociedade também não mudar, se não fizer uma reflexão e não vender o seu voto, achar normal que o prefeito ou o governador, na época da eleição, vai usar o dinheiro público para ganhar a eleição. As leis podem mudar, mas se a sociedade não muda ela mesmo vai enfraquecendo as leis e as ações institucionais. É necessário que a gente tenha uma cidadania ativa também depois das eleições. Isso exige uma mudança, não apenas de comportamento, mas de valores. E a gente sabe que mudança de valores demora tempo, precisa passar por um processo que, às vezes, demora mais de uma geração”, conclui Ismael.

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Procurado pela Sputnik Brasil, o Instituto Ipsos informou que não havia ninguém disponível para prestar maiores esclarecimentos sobre a pesquisa.

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