Depois outro vento

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por Maíra Vasconcelos, GGN

Antes da escrita existiu aquela confusa irritação. Mas o antes da escrita não existe mais, esse tempo amado. Agora, apenas a escrita, apenas cada palavra e a exposição do corpo ao sol ao amarelo. Todos os dias. Para não me perder sem a palavra. Talvez, perdida apenas na medida nefasta, sim, essa medida soprada em cada passo quando escrevo. E, mais uma vez, escrevo. Induzida apenas pela palavra, por cada trabalhosa palavra. Essa palavra cheia de cores e luzes, cheia. Um espectro capaz de tontear a qualquer um.

Vou. Sem a confusa irritação, sem a morte antecipada. Se quando falava da morte alguém morria. É sempre assim. Um reflexo pelo pavor. Pelo susto. Então, escrevo. Agora todos vivem, todos vivem! Exclamação. Porque também pela vida escrevo, mais uma vez, escrevo. Todos os dias.

Mas o antes da escrita não existe mais, esse tempo amado. Nada mais arrebentou em minha cabeça. Aquela dor estranha. Todos sentem uma dor estranha durante a vida? Sim, todos sentem. Depois são requeridas flores, flores e cantorias. Assim. A cantoria fora dos males do mundo, esse mundinho. A cantoria fora dos irrisórios viveres, dos irrisórios sentires. A cantoria longe desse mundinho prejudicial. Vou.

Pisando e recolhendo flores, tantas flores. Aceitem novas margaridas, por favor – há muitas margaridas. Qual a sua cor preferida dentro de um espectro? Seu corpo tem uma cor preferida? Anita Malfatti gostava de flores e buscava tons – tons de ouro que eram minha alegria milionária, disse Mário. Sim. Há muitas margaridas. E o lado doce, às vezes. Quando cores se sobressaem desnudando o mundo, cores ainda tão lúcidas, aquela lucidez esgarçada e permanente, a lucidez na medida de um-passo-atrás-do-outro. Também a cultivada lucidez das palavras, das palavras e das cores das palavras e das cores. aaahhh. Cansei. Os cansaços de uma vida se acumulam? No corpo de cores e flores talvez tudo seja mais, tanto a presença como a ausência de tudo.

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Porque o antes da escrita não existe mais, esse tempo amado. E meus olhos pesam, às vezes, quando vejo o mundo todo sujinho. Então empreendo esforços de cores e flores para distraí-los. A esses olhos sentidos pesados e pressionados pelo exterior, o exterior de todas as coisas. O exterior e suas maldadezinhas enfadonhas. Sim. Além desta janela, das frestas e luzes desta janela, todo o exterior abrutalhado. Assim, vivo insuportavelmente desviada de mim mesma. Ainda tão quieta e mansa neste quarto, tentando a medida nefasta de cada palavra e apenas pela palavra. Com atenção em nada para não ter que olhar, porque não gosto desse poder, esqueço-me de. E assim vem-me um pouco de liberdade junto ao vento. Passou. vrummmmm. Quase desconheço tudo para não ter que olhar fixamente, para não ver que o exterior de todas as coisas está sempre a ladrar. Todos os dias.

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