Deus é brasileiro, mas, requereu cidadania sueca

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Deus é brasileiro, mas, requereu cidadania sueca. Pena que a Suécia seja o país mais ateu do planeta. Um dos mais ricos também. Campeão mundial de olhos azul-turquesa e suicídios. Ou seja, um baita lugar para se morar. Não entendo Deus. Não entendo trigonometria. Minha mulher não me entende, mesmo assim, permanecemos casados, gozando a vida a dois numa adorável incompreensão mútua. Quando se vê, já se passaram 20 anos. O amor é doido demais. Moro num país tropical, abençoado por Jorge Benjor e bonito por natureza. Me amarro em suecas, mas, gosto mesmo é do Brasil. E vou lhes dizer por que.

Antes de mais nada, cumpre dizer que sou um poço de cinismo e sarcasmo. Relevem todas as provocações. Eu gosto do Brasil porque foi aqui que os meus bisavós enfrentaram a malária, o parto domiciliar, o mal de sete dias, a onça pintada e o medo da morte. Eu nasci durante o regime militar, enquanto criancinhas comiam comunistas nos porões secretos da ditadura. Uma atrocidade deplorável até hoje defendida por uma legião de cristãos convictos. Foram nessas plagas selvagens que o meu umbigo caiu. Tenho certos laços afetivos que me atam ao passado numa proporção além da média. Fazer o quê? Acima de tudo, um latino-americano é o que sou.

Eu gosto do Brasil porque os índios daqui são preguiçosos. Não os culpo por absolutamente nada. Eles sabem viver. Quisera copular numa rede, garantir o meu sustento com a caça, a pesca, a plantação de mandioca, com os transes mediúnicos regados a chá de ayahuasca. Sim, sou casca grossa. Mais uma razão para me afeiçoar ao Brasil. Tenho especial apreço por esse país deseducado, o primeiro do mundo no ranking da FIFA, o septuagésimo nono no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Eu gosto do Brasil porque somos privilegiados pela natureza, uma nação gigantesca provida de sete mil quilômetros de litoral atlântico pra gente poder nadar, nadar, nadar e morrer na praia. Brasileiro é isso: carisma, perseverança, fé e uma malandragem velada que parece inata.

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Excetuando-se o tempo, as pregas anais e a chave do meu carro, nem tudo está perdido. Ao menos, caíram a taxa de natalidade por vontade-de-comer-alguém e a taxa de mortalidade por diarreia-e-fome. Há uma certa inanição de livros, é bem verdade, embora, muitos se gabem por ter sobrevivido às fatigantes listas compulsórias de leitura do ensino regular. Irregular mesmo é ser apaixonado por literatura. Leitores contumazes ninguém merece. Já notaram o ar de empáfia de quem já leu um “Grande Sertão: Veredas”? Os intelectuais brasileiros deveriam se mudar de vez com suas pilhas de livros para os cafés de Paris.

Odeio esse país. Amo essa joça. Agora é pra valer: eu gosto do Brasil porque tivemos Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Carlos Drummond de Andrade e Glauber Rocha. Viver numa nação com dimensões continentais é retirar pedras do caminho. Há sempre um caminhão delas a atravancar o progresso. Eu gosto do Brasil. Eu gosto de rir, mas, por favor, senhores, não me façam de palhaço. Não me digam que toda essa bandalheira institucionalizada é coisa de agora. O emaranhado de leviandade e corrupção, há tempos arraigado nos três poderes da união, me deixa deveras aturdido, mal humorado, desesperançado, carrancudo. Mesmo assim, eu não me mudo. Nem de cara, nem de país. Minhas convicções são fortes, conquanto, a minha fé seja fraca. Foi muita sorte ter nascido aqui, nessa pátria incrível, sem tsunami, sem lava vulcânica, sem terremoto, uma terra fértil em que, se plantando, tudo dá. Por falar nisso, vão plantar batatas!

Vocês não gostam de mim. Eu também não morro de amores por vocês. Pouco importa. Eu gosto mesmo é do Brasil. Deu pra entender? Não? Então, casem-se comigo.

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