Hormônios para coxinhas

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por Fernando Brito, Tijolaço

O sempre lúcido José Roberto de Toledo, no Estadão, vai direto ao ponto: “Hoje, nada é mais valioso na política do que determinar a agenda – e eleger quem será lavado em público a cada ciclo noticioso.”

Aqui, nas terras tupiniquins, a concentração da mídia facilita a aplicação da  hipótese do agenda-setting, formulada nos anos  60 e 70  pelos professores Maxwell McCombs e Donald Shaw, segundo a qual os meios de comunicação são capazes de, a médio e longo prazo, influenciar sobre o que pensar e falar e, aqui, com um rápido gesto de prestidigitação midiática, retirar disso um fator de mobilização relativamente rápida de parcelas da opinião pública.

A direita vem atravessando uma quadra de desgaste, passado algum tempo de abocanhado o poder: a crise não cedeu, embora a inflação tenha dado um “refresco” pela falta de poder de compra da população, o desemprego cresceu, os escândalos se sucederam no Governo Temer, o protesto contra a reforma da Previdência deu sinais de ser mobilizador e, para completar, vem o aumento de impostos, por enquanto posto na base do “prevejo mas não anuncio” com que se amacia a carne do pato.

No campo eleitoral, diretamente, Lula, depois de todas as tentativas de incriminá-lo com “triplex e sítio” vem dando sinais não só de resistência, mas de fortalecimento eleitoral, e o ato em Monteiro, na Paraíba, por mais que boicotado pela grande mídia, algum impacto alcançou.

Com o governo em frangalhos, à exceção de João Dória, o tucanato se depenou, ainda mais que as denúncias contra eles, também tratadas discretamente, os enfiaram no saco do “é tudo a mesma coisa”.

A direita parecia ter perdido a rua e dos coxinhas não se tinha notícia. O ato de domingo parecia fadado ao fracasso e mesmo nos seus quartéis políticos, soavam as trombetas de “alerta” de seu tipo mais simbólico, Reinaldo Azevedo, avisando do esvaziamento e da “bolsonarização” da coxinhatas da Paulista.

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Com o timing sempre preciso da agenda, porém, surge o vazamento das acusações da Odebrecht, agora mirando diretamente Lula e Dilma, até agora sem o endosso de provas, vazado do Tribunal Superior Eleitoral para um site de ultradireita e, já nas primeiras horas da noite, transportado para o ambiente limpinho e cheiroso dos grandes sites e jornais e para a Globo.

É evidente a pretensão de dar uma injeção de hormônio no ato de domingo, quem sabe para mostrar de novo “famílias inteiras que vieram aproveitar o domingo”, como diz a idílica Globonews. É possível que algo se consiga, para não mostrar a avenida vazia,  sinal claro da perda das ilusões da classe média antes útil e agora estorvo.

O golpe dos políticos se consuma na tomada do poder. O da mídia é permanente e segue em curso.

Não basta apenas tomar o poder; é preciso evitar a todo custo que se o tenha de devolver, pelo voto.

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