Não é tão fácil vencer uma geração

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por Fernando Brito, Tijolaço

Se eu pudesse realizar a pretensiosa ideia de condensar numa frase o que vem a ser a transição de um homem da juventude para a maturidade e, daí, para a velhice, diria que é a caminhada onde trocamos sonhos por deveres.

Na juventude, os sonhos brotam e os deveres são impostos. No final da vida, os desejos secam e os deveres passam a ser nossa razão de viver.

Deveres não são uma opressão, longe disso. São o resultado de nosso amor: pelos filhos, pelos netos – quando se os têm – e pela humanidade, quando não se a perde, no trajeto da vida.

Daí o drama que vive minha geração.

A maioria de nós formou-se num tempo em que se ansiava pela liberdade, boa parte de nós, hoje, quer restringi-la, de acordo com seus padrões.

O povo pode decidir, formalmente, mas nos limites do que nós lhe permitamos.

Daqui a algumas horas, três homens decidirão por mim, por você, por milhões.

Francamente, ainda que fossem verdadeiras todas as convicções de Moro e dos rapazes da Lava Jato, é ridículo que a paga da corrupção de bilhões da Petrobras ao – palavras da acusação – “chefe da cleptocracia” fosse um “pombal” no Guarujá.

Não há como negar que, diante de um primarismo destes, não nos invada uma sensação de cansaço diante da burrice.

Ocorre, porém, que já não nutrimos o sonho da racionalidade, a ilusão cartesiana de que o bom senso seja mesmo, como escreveu o René, a coisa mais bem distribuída no mundo.

E, apesar disso, nos impele o que nos acostumamos, com o tempo, a aceitar como dever.

Por sorte, já não nos importamos tanto sobre os efeitos destes deveres sobre o corpo e sobre a vida. Há cansaço, sim, mas ao menos concedam esse direito aos que viveram sem abjurar da juventude.

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A morte já não nos assusta tanto quanto o fracasso daqueles sonhos que já não esperamos viver.

Hoje, esta quarta-feira, será um daqueles dias em que nada se poderá tirar dos que já nada esperam.

E no qual nada se poderá tirar, portanto,dos que já nada esperam, mas que tudo fazem pelo que consideram seu dever.

Nada se pode tirar porque só temos a dar.

Os nossos sonhos, agora, são deveres.

E ninguém há de parar aquilo que sabemos ser nosso dever sonhar.

E só quem nos pode tirá-los é aquela que nos deu, a juventude.

Só se os pudermos entregar a ela poderemos ir.

 

 

 

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