No Chile, a mãe de todas as greves de caminhoneiros, que ajudou a derrubar Allende

por Clayton Netz , DCM

Em menos de dez dias, a paralisação nacional dos caminhoneiros colocou o Brasil em polvorosa, afetando praticamente todos os setores de atividade.

Não por acaso, caos foi a definição mais empregada pelos meios de comunicação para explicar a situação criada pelo movimento, que aparentemente acabou de sepultar o que restava do governo Temer.

Ao provocar em tempo recorde o desabastecimento de combustíveis e alimentos, prejudicar a circulação de pessoas e mercadorias, levar dezenas de setores diferentes da economia a interromperem ou reduzirem drasticamente suas atividades, a greve de maio instalou, inegavelmente, a  insegurança e a incerteza diante de seus desdobramentos entre a população.

Por suas dimensões, a mobilização dos transportadores de carga, que já tivera uma tentativa de menor intensidade em  2015, ainda no governo Dilma Rousseff, lembra um evento ocorrido há 46 anos no Chile do presidente socialista Salvador Allende.

Deflagrada em 9 de outubro de 1972, a greve dos caminhoneiros chilenos durou nada menos de 26 dias, tempo suficiente para desorganizar a vida do país andino e criar as condições para o golpe de Estado que derrubou Allende no ano seguinte.

No entanto, ao contrário do que ocorre aqui, a ação dos grevistas chilenos não foi aceita passivamente pelo governo e por seus apoiadores do campo popular.

Ao contrário.

Enfrentado com firmeza por Allende, o “paro”, como se diz no Chile, “gerou uma mobilização colossal e criativa para enfrentar o desafio até então inédito de manter o país funcionando contra a tentativa patronal de paralisá-lo”, na avaliação do historiador chileno Jorge Magasichi,  professor do Instituto de Altos Estudos de Comunicações Sociais de Bruxelas.

Segundo Magasichi, a “greve de outubro”, cuidadosamente preparada durante quase um ano pelos sindicatos patronais, tomou  rapidamente os traços de uma insurreição que buscou a dissolução do governo de Allende, ou a fabricação de tamanha crise que provocasse uma “intervenção militar” (alguém já ouviu algo parecido por aqui?).

Ele destaca o papel decisivo da oposição, como a centrista Democracia Cristã e o direitista Partido Nacional, adversários desde sempre na política local, numa aliança batizada de Confederação Democrática, que utilizou sua maioria parlamentar para frear e inviabilizar as ações do Executivo, reforçada pela atuação inestimável da Justiça conservadora.

Não faltou, ainda, a milionária contribuição dos meios de comunicação, que detinham o controle majoritário dos jornais e rádios (a televisão ainda engatinhava e tinha um alcance pouco expressivo), capitaneados pelo grupo editorial El Mercúrio, um misto de O Globo e Estadão chilenos.

Segundo um estudo do próprio El Mercúrio, a oposição contava com 64% da imprensa, contra 23% dos governistas e 13% independentes.

O pretexto para a sublevação dos caminhoneiros chilenos contra o governo da Unidade Popular foi a tentativa de criação de uma estatal que concentrasse as modalidades de transportes aéreos, marítimos e terrestres na inóspita província de Aysén, semi-isolada na Patagônia,  povoada à época por apenas 6 mil habitantes.

Com essa população, pode-se imaginar que a frota de Aysen não passasse de uma centena de veículos.

Mas pretexto serve para ser pretextado e a oportunidade não escapou à recém-criada Confederación de Sindicatos de Dueños de Camiones de Chile, presidida pelo advogado León Vilarín.

Sob esse guarda-chuva abrigavam-se 165 sindicatos, que representavam 40 mil associados, donos de  56 mil caminhões.

Tratava-se de uma frota extremamente pulverizada — em média, 1,4 veículo por proprietário. A exemplo do que acontecia nos transportes de passageiros, não havia naquele começo dos anos 1970 grandes empresas no setor, o que dificultava uma intervenção mais efetiva do governo no caso de uma greve.

Cada dono de ônibus simplesmente levava seu caminhão ou ônibus para casa, impedindo sua requisição pelas autoridades.

Ex-militante do Partido Socialista, o mesmo de Allende, Vilarín mais tarde teve reveladas suas ligações com a CIA, que chegou a investir US$ 2 milhões (US$ 12 milhões em valores atuais).

Ao mesmo tempo, estava ligado ao movimento de ultra direita Patria y Liberdad, o braço armado do movimento grevista, responsável por sabotagem e ataques aos motoristas que não aderiram à greve.

Ou seja: ao contrário da greve iniciada na semana passada no Brasil, marcada pela descentralização das lideranças, havia um comando organizado e com autoridade reconhecida no “paro” do Chile. 

Detalhe: três semanas antes da deflagração da greve, o governo havia firmado um acordo com Vilarín,  concedendo um aumento de 120%  nos fretes e o congelamento dos combustíveis.

Diante da ilegalidade do movimento, Allende revidou decretando o estado de emergência em 12 das 25 províncias, estendido posteriormente a 20.

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