O mercadismo que quer operar acima das tensões sociais e políticas

Foto: José Cruz/Agência Brasil
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por André Araújo, GGN

Samuel Pêssoa virou uma espécie de guru intelectual do mercadismo radical que pretende operar acima das tensões sociais e políticas, algo hoje inteiramente fora de moda nas grandes nações pós-crise de 2008.
Nos EUA, catedral mundial do pensamento econômico aplicado à realidade, foi o ESTADO de corpo e alma quem salvou o mercado em 2008, salvou da crise PROVOCADA PELOS EXCESSOS DO MERCADO.
Se não fosse o Tesouro dos EUA, a crise de 2008 seria infinitamente maior. Foi o Tesouro dos EUA, autorizado pelo Presidente Obama, quem sacou dinheiro de seu caixa no importe nada desprezível de US$778 bilhões dentro da autorização do programa TARP para salvar o Citigroup, a General Motors, a seguradora AIG e mais 200 outras corporações e bancos, decisão tomada de forma ultrarrápida, engenhosa, eficiente e sem pruridos ideológicos, no incêndio não se pergunta de onde vem a água e SALVOU O MERCADO.
Depois disso as teses do neoliberalismo puro FORAM ENTERRADAS nos EUA, o “mercado” perdeu tanto prestígio político que Trump, um aventureiro anti-mercado, no qual deu muitos tombos a ponto de não ter mais crédito nos EUA desde o começo da última década e ter que se financiar em paraísos fiscais com dinheiro de origem suspeita, seu maior financiador são bancos de Chipre, que operam 100% com dinheiro russo, a entidade “Wall Street” não é mais o farol do mundo, as universidades do “mainstream” monetarista já não pregam mais o credo de Friedman mas esqueceram de avisar os “economistas de mercado” do Brasil e seus apoiadores intelectuais como Samuel Pessoa e Mansueto Almeida, que continuam com a velha e desmoralizada cartilha do “ajustismo”, mas sempre esquecendo de sequer mencionar a incongruência dos super-juros que se paga aos credores do Estado, isso não consideram despesa porque do outro lado dela está a receita dos bancos e rentistas.
O ajuste então tem que ser feito em cima de remédios e merenda, prebendas de pobres folgados. Acho estranho intelectuais que acredito não serem bilionários defenderem banqueiros e financistas. Deixe que eles se defendam, quem está do outro lado da cerca deve defender o povo e suas carências e não o financismo.
Nada mais natural que Armínio Fraga, que vendeu sua gestora para o Morgan por 700 milhões de dólares ou Roberto Setúbal, que preside um banco que vale na bolsa US$ 72 bilhões ou Henrique Meirelles, que tem apartamento luxuoso e aposentadoria garantida em Nova York, defendam o financismo com legitimidade, mas acho incrível professores de universidade defenderem nababos do neoliberalismo, não fica bem.
Lembremos que bilionários americanos, muitos deles, se dedicaram a causas sociais como resgate de uma dívida pela sua riqueza, o símbolo deles são os Rockefeller, que doaram a boas causas o grosso de sua fortuna, incluindo-se aí o prédio da Faculdade de Medicina da USP e a sede das Nações Unidas em Nova York.
A filha de David Rockefeller, Peggy, morou dois anos na favela da Rocinha trabalhando em assistência social, e ia ao centro do Rio de ônibus coletivo, herdeira de uma fortuna símbolo da história do capitalismo, aqui no Brasil há pobres que prestam homenagem a banqueiros com apartamento em Paris e torcem o nariz para as periferias carentes.
A defesa do neoliberalismo no Brasil é incompatível com a situação política e social atual do Brasil, nosso estágio exige a presença do Estado em larga escala, assim como na Índia, na China e na Rússia, o mega capitalismo só funciona em outro estágio da organização social de um País, com mais de 100 milhões de pobres e miseráveis nas periferias das grandes e médias cidades, com desemprego de 30% entre os jovens, o neoliberalismo não vai resolver graves problemas nem em cem anos, a economia é parte do tecido social, não está fora dele, o neoliberalismo pode ser eficiente para si mesmo mas não é eficiente se na sua escalada produz um imenso exército de miseráveis sem futuro.
Economista desligado da realidade social, além de ser uma anomalia por definição, é um perigo para a política e para a definição de políticas com verniz intelectual.
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