O programa de Gregório Duvivier é perfeito para um país que virou uma piada

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Quando o país inteiro é uma piada, o humor precisa falar de coisa séria sem perder o deboche.

Gregorio Duvivier vem fazendo isso no Porta dos Fundos e fora dele.

Foi ele o autor daquele vídeo pra lá de didático sobre o Escola sem partido e também daquele stand up – que, convenhamos, já é um clássico – sobre o ilegítimo.

Agora, em seu programa na HBO, GregNews, ele faz basicamente o que sempre fez na internet: fala de coisa séria cheio de deboche.

A diferença é que, agora, ele transforma a agenda política do Brasil em piada – não que antes ela já não fosse uma piada –  com a urgência didática de que o Brasil tanto necessita: no programa de estreia, por exemplo, explicou o esquema da Odebrecht como quem dá uma aula – mas uma aula daquelas em que você ri do início ao fim e nunca mais esquece o que aprendeu.

Conseguiu, em um programa só, bater na Globo, na Odebrecht, em Dória, em Temer, em Frota e em Lula — e sem perder a graça. Isso é o que eu chamo de poder de síntese.

Graça, aliás, é tudo o que esse programa tem além da didática. Usando o absurdo como método, mistura memes, recortes televisivos, trocadilhos que não por acaso são a cara da geração Y e uma acidez crítica antes pouco vista nos canais fechados (nos canais abertos, até hoje não é vista).

Um pouco mais de trinta minutos e aproximadamente dez gargalhadas homéricas desta que vos escreve – que inclusive desistira de assistir programas de TV que envolvessem Duvivier desde a vergonhosa “O fantástico mundo de Gregório”, uma série egocêntrica sobre a vida do humorista que passou no Multishow e ninguém deu a mínima.

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Perdoei-o por aquele insulto televisivo, porque todo mundo passa por fases sombrias na carreira, e porque o talento de Duvivier como artista beira o incontestável.

É sócio-criador do maior portal de humor do país – que, pela primeira vez na história, mantém o mesmo sucesso (ou mais) por anos a fio. Foi o canal pioneiro, aliás, em fazer, no YouTube, um humor que não fosse tosco: que se preocupasse com enquadramento, cenário e bons roteiros, por exemplo.

Como ator e roteirista, também não faz por menos: criou a Portátil, a primeira peça de improvisação com narrativas longas do Brasil –  e o humor que ele faz é metade graça, metade poesia.

Escreveu um dos mais lindos livros de poesia entre os poetas contemporâneos vivos, “a partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora”, em uma época em que não estava tão preocupado em ser popular.

Preocupar-se em ser popular, aliás, não é nenhum defeito. Eu mesma já me incomodei com isso – graças à minha síndrome de hipster baiana – e torcia o nariz pra todo mundo que, como ele, parecesse confortável com a fama, mas ter uma figura pop como Gregorio sendo lido e ouvido pela juventude brasileira, não é só desejável: é essencial, na atual conjuntura.

E é essencial que ele use sua influência, seu tempo e seu fôlego artístico para defender as causas nas quais acredita – que são as causas nas quais todo ser humano minimamente humano também acredita – quando poderia simplesmente fazer um programa besteirol na Record e continuar usando o próprio tempo só pra ganhar mais uma graninha com merchan.

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A gente sabe que Duvivier quer o dinheiro da HBO – eu também queria o dinheiro da HBO – além de se consagrar como apresentador, agora que já está consagrado como ator, humorista, escritor e todo o resto.

Ainda bem que ele quer também contribuir para a construção de um país politicamente menos ignorante – e tem conseguido.

Viva Duvivier e a doutrinação comuna.

Vídeo:

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