Por que um presidente ilegítimo e impopular como Michel Temer continua a nos governar

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por Joaquim de Carvalho, DCM

A pesquisa do Ibope divulgada hoje deveria selar o destino de Michel: fora do Palácio do Planalto.

Quando conspirava contra a titular do cargo, Dilma Rousseff, ele mesmo disse que não era possível governar com 8% de aprovação.

Como ele, com 5%, consegue?

Temer tem no Congresso Nacional o controle suficiente para se manter no cargo – e vai continuar, apesar da denúncia da Procuradoria Geral da República.

E no Parlamento não se constrói hegemonia sem abrir os cofres.

Pode ser na forma de emendas, como as liberadas para o deputado Sérgio Reis, para quem Temer serve de menino da porteira – não só a ele, mas a outros parlamentares.

Temer mantém a porteira aberta, para a boiada passar – nesse caso, a comissão que o parlamentar recebe das empresas responsáveis por obras que o dinheiro das emendas vai pagar.

Mas isso é uma fração do que corre nos subterrâneos de Brasília.

Quando era deputado pelo PMDB, José Aristodemo Pinotti participou da reunião em que Michel Temer e Luiz Carlos Santos anunciaram o apoio a Fernando Henrique Cardoso.

“Eles comunicaram que cada deputado receberia 50 mil reais/mês e o partido teria dois ministérios porteira fechada”, disse Pinotti, numa conversa que tivemos logo depois de uma entrevista que realizei pela Globo – na época, Pinotti estava empenhado em manter Celso Pitta afastado da prefeitura, com a posse do vice, Régis de Oliveira.

Pinotti diz que, numa bancada de mais de 70 parlamentares, só ele e mais dois não participaram do acordo.

Esse tipo de apoio parlamentar foi radiografado, de alguma, pelo processo do mensalão, já no governo Lula.

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Ninguém constrói maioria parlamentar no Brasil, seja na Câmara Municipal de Serra da Saudade, em Minas Gerais, o município com o menor número de habitantes, ou na de São Paulo, a maior cidade do país, sem abrir o cofre.

Isso explica por que, em São Paulo, por exemplo, o preço médio do voto custa a cada vereador 75 reais. No final das contas, uma campanha vitoriosa sai por R$ 2,25 milhões.

Alguém paga essa conta e garante a vida de rico aos eleitos.

Em geral, o dinheiro da propina sai dos maiores fornecedores – no caso dos municípios, ônibus ou lixo com certeza.

No plano federal, o mercado é mais amplo.

O ex-deputado Pedro Correa, do PP, relatou à Polícia Federal que o banqueiro Olavo Setúbal esteve, em pessoa, no plenário da Câmara dos Deputados quando estava sendo votada a emenda da reeleição, no governo de Fernando Henrique Cardoso.

Para cada um que votava sim, ele dava um papelzinho que autorizava um doleiro de Brasília a entregar a propina.

Fernando Henrique e a família de Setúbal, já falecido, negaram. Mas Fernando Henrique conta, em seu “Diários da Presidência”, que Setúbal estava em Brasília no dia da votação da emenda.

E empenhado.

Segundo FHC, Setúbal achou espantoso que ele não estive tenso nem que cuidasse, naquele dia, exclusivamente das articulações para a aprovação da emenda.

FHC não diz, mas não precisava. Empresários como Setúbal faziam isso por ele.

Setúbal tem o cofre, político como Temer, a chave.

Por sinal, quem comandou a sessão que aprovou a emenda da reeleição foi ele, o Michel, na época presidente da Câmara.

Antes que se demonize a política, na pregação a favor do mercado, que fique claro: não é o Estado responsável pelas mazelas, mas quem se serve dele, o mercado à brasileira – meritocracia é conversa para negar direito a pobres.

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Só quem tem a chave desse mercado consegue ter o apoio vigoroso do Congresso Nacional.

Nada disso se sustentaria se a população fosse à rua reivindicar um país com decência na política.

Mas quem foi à rua protestar contra a corrupção se acomodou.

Não era por corrupção, era para derrubar Dilma Rousseff e o PT.

Feito o serviço, de volta à casa, com as panelas no armário.

Para estes, a vergonha de viver num país governado por corruptos é menor do que o ódio ao PT.

E Temer segue tocando a caravana, dizendo que, no governo, faz a vontade do mercado.

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