Rumo ao Oriente Médio

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por Marcelo Zero, Brasil 247

Trump e o nosso governo golpista estão ameaçando transformar a América do Sul num novo Oriente Médio.

Não há dúvida de que a aposta insensata no acirramento do conflito interno daquele país e a ameaça aberta de uma intervenção militar tendem a desestabilizar todo o subcontinente.

Apesar de seus graves problemas sociais, políticos e econômicos, a América do Sul é uma região geopoliticamente estável. Suas fronteiras, consolidadas há muitas décadas, revelam uma zona geográfica de notável continuidade. Basta comparar a evolução do mapa da região com os mapas da Europa, da África e do Oriente Médio para perceber que vivemos, neste sentido estrito, numa região de estabilidade privilegiada. O último grande conflito que a região viveu foi a Guerra do Paraguai.

Para tanto, contribuiu bastante o papel que o Brasil exercia como poder moderador e pacífico. Desde o Barão do Rio Branco, que consolidou nossas fronteiras, a presença do Brasil vinha sendo, em regra, apaziguadora.

Esse poder moderador, uma vez superadas as ditaduras militares e a rivalidade Brasil-Argentina, se plasmou no projeto integrador do MERCOSUL e posteriormente, já nos governos do PT, na conformação da Unasul e da Celac. Assim, pela primeira vez a região se congregava de forma autônoma, sem a tradicional interferência e tutela dos EUA. Esse investimento na integração pacífica foi uma conquista geopolítica notável, que beneficiou extraordinariamente os interesses do Brasil. A ascensão do Brasil no cenário mundial não teria acontecido sem esse investimento na integração regional.

Mas bastou o governo golpista assumir para que todo esse esforço fosse por terra. Com efeito, a política externa do golpe assumiu como sua principal e única diretriz desestabilizar o governo eleito da Venezuela. Em transe ideológico, os golpistas abandonaram todos os esforços que o antigo governo legítimo vinha fazendo para solucionar o conflito por meios pacíficos e dedicou-se a acirrá-lo, assumindo seu apoio à oposição de direita da Venezuela, como era do agrado dos EUA. Assumiu, assim, uma posição subalterna de braço auxiliar do Departamento de Estado norte-americano. Com isso, os interesses reais do País foram abandonados e o Brasil se desqualificou para atuar como mediador e conciliador no conflito.

Mas o governo do golpe está brincando com fogo. Uma intervenção aberta dos EUA no conflito como sugere Trump, ainda que não seja militar, acarretará efeitos terríveis.

A Venezuela está à beira de uma guerra civil aberta de consequências imprevisíveis não apenas para o nosso vizinho, mas também para o nosso subcontinente como um todo. A alternativa ao diálogo e ao entendimento político é um banho de sangue. Os chavistas dominam a forças armadas e a guarda bolivariana. Por outro lado, os setores radicais da oposição venezuelana têm vínculos com grupos armados colombianos, bem como apoio em alguns setores dissidentes das forças de segurança. Caso o conflito adquira a feição de um enfrentamento armado generalizado, e falta muito pouco para isso acontecer, as consequências se farão sentir também no Brasil, que perderá um grande parceiro comercial e um vizinho que vinha apostando no desenvolvimento de uma vasta fronteira comum e na integração de suas infraestruturas.

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Porém, o risco maior é geopolítico. Há uma ameaça clara de internacionalização do conflito venezuelano. Os EUA apoiam e financiam a oposição venezuelana, inclusive seus setores mais radicais e violentos. Apostam na derrubada a todo custo do governo Maduro. Não estão dispostos a perder o controle da maior reserva de petróleo do mundo, que dista apenas 4 dias de navio das grandes refinarias do Texas.

Por outro lado, a Rússia, com a qual o governo venezuelano firmou acordos militares, e a China, que já importa duas vezes mais petróleo da Venezuela que os EUA, não parecem dispostos a perder sua nova influência no país que tem a maior reserva de hidrocarbonetos do mundo.

Ao contrário do que imaginam os nossos provincianos golpistas, o que incomoda realmente aos EUA não são as “violações aos direitos humanos” (que ocorrem de parte a parte) e as supostas violações à ordem democrática no país que realizou 21 eleições desde que os chavistas chegaram ao poder. O que incomoda realmente é a política externa independente, e frequentemente desafiadora, dos chavistas e, sobretudo, a crescente influência que Rússia e China têm naquele país.

Os EUA apoiam ditaduras medievais como as da Arábia Saudita e a dos Emirados Árabes, nas quais nunca houve eleições reais. Desde que sejam aliados políticos e o petróleo flua, não há problema algum.

Essa influência da Rússia e da China na Venezuela é real e crescente. Em 2015, 60% do petróleo da Venezuela foram para a Ásia. O maior importador é a China, que absorve 40% das importações, ao passo que os EUA, o antigo grande comprador, absorve apenas a metade (20%). A tendência é que participação da China aumente. É que a Venezuela tem dívidas crescentes com a China, que disponibiliza um crédito rotativo aos venezuelanos desde 2010. Com a queda do preço do óleo, a crise, e a guerra econômica que ocorre na Venezuela, aquele país tem de pagar esse crédito com exportações de petróleo. A tendência é que vá cada vez menos petróleo para os EUA.

O mesmo ocorre com a Rússia. A PDVSA venezuelana, estrangulada pela crise e pelas retaliações econômicas dos EUA, está endivida com a Rosneft, a estatal petroleira russa. Como contrapartida, a petroleira russa vem adquirindo participação crescente em ativos importantes da PDVSA. A Rosneft já possui a metade da Citgo, uma refinaria que a PDVSA tem nos EUA. Ademais, há uma clara ligação política e militar entre Caracas e Moscou.

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As opções políticas e diplomáticas dos chavistas e a crise econômica fazem da Venezuela um país cada vez mais próximo do BRICS (o segundo maior importador de petróleo da Venezuela é a Índia) e cada vez mais longe da influência dos EUA. Não é a retórica inflamada de Maduro que assusta os EUA, são esses fatos da realpolitik mundial.

É isso que está em jogo. O controle do petróleo e da região mais rica em recursos naturais e de biodiversidade do planeta. Não são os direitos humanos. Não é a democracia.

Assim sendo, o cenário mais provável que se descortina, caso haja uma intervenção, ainda que limitada a “ataques cirúrgicos”, por parte dos EUA, é o de um conflito sangrento de longo prazo, como aqueles que se arrastam há anos no Oriente Médio, gerando caos e destruição em grande escala e uma persistente instabilidade geopolítica.

De fato, um conflito desse tipo levaria instabilidade a toda a região e destruiria a projeção dos interesses do Brasil na América do Sul, jogando por terra todo o esforço diplomático feito na integração regional. Para o Brasil, e isso que está em jogo. Para quem quer recuperar sua economia, não é, convenhamos, um bom negócio.

O golpe brasileiro tem uma capacidade de destruir inacreditável. Tiraram Dilma com uma manobra jurídica suja e jogaram o Brasil na decadência e no caos. Apequenam o País, destroem sua economia, vendem patrimônio público a preços aviltados e destroem o Estado de Bem Estar e os direitos dos trabalhadores.

Não bastasse, destroem a tradição diplomática do Brasil e ameaçam todo o investimento feito na integração regional e na conformação da América do Sul como uma zona integrada e pacifica.

Agora, com a obsessão ideológica de derrubar Maduro a qualquer preço, o governo do golpe coloca o Brasil e toda a nossa região rumo à instabilidade geopolítica destruidora que reina no Oriente Médio.

Os golpistas transformaram o golpe e sua instabilidade destrutiva no principal produto de exportação do Brasil.

Embora não se apercebam disso, não parecem, nas consequências que produzem, ser muito diferentes do Estado Islâmico. Fazem parte da mesma piromania geopolítica.

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