Sei bem de onde vim, de um mundo que estão matando

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por Fernando Brito, Tijolaço

Minha história pessoal  é a história da afirmação do mundo do trabalho.

Do lado do pai, um avô morto cedo, descendo das Alagoas para o Rio, um pai bancário para sustentar seus estudos de História e Geografia, e uma profusão de tios e maridos das tias, um outro bancário, mais um “posto em disponibilidade”  – isso era quase um homicídio funcional – do Arsenal de Marinha, ganhando a vida valentemente como técnico de televisão (no tempo em que tvs tinham técnicos, flybacks e seletores de canal), outro taxista, com a garotada lavando o carro todo o dia com querosene, para brilhar a lataria.

Do lado da mãe, migrantes do interior, para ganhar a vida no Rio que se espalhava nos subúrbios operários, onde os IAPIs dignos  em Realengo sucediam as “cabeças de porco” embora tenham quase virado favelas agora, porque os filhos e agora os netos e os bisnetos não têm para onde ir, senão para os “puxados” que os terrenos amplos e as construções sólida permitiam.

Nem meus pais, nem meus avós foram gente extraordinária, como eu não sou.

Não somos iguaizinhos, espalhados e sujeitados a este mundo vário, eu e meus primos, mas algo temos em comum.

Tivemos mais chances que nossos pais, como nossos pais as tiveram muito maiores do que os nossos avós.

Muitos são bacharéis, outros mestres, alguns doutores a quem os anos carcomem as faces, mas talvez não as memórias dos guarus (os “barrigudinhos”)  pescados nos valões, volte e meia uma rã carnuda a nos deixar orgulhosos do troféu de caça em Madureira.

Só na maturidade, conversando com um amigo médico, com todos os meus preconceitos de “marxista”,  é que fui entender o que se passava: “Fernando, nós somos netos de Getúlio Vargas”.

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E fomos mesmo, netos de gente que passou a ter direitos, filhos de gente que passou a ter progresso, porque, ainda que não para todos, havia a escola pública.

Somos netos e filhos de um mundo onde o trabalho passou a ter direitos e, talvez, os acasos das vidas nos tenham feito esquecer disso, agora que alguns de nós tenhamos – justo pelo que a vida nos deu – saído da carência e da necessidade.

É por isso que ao ver meu País retroceder à barbárie que antecedeu nossos pais e da qual se livraram nossos avós sinto o tempo passar ao contrário.

Não para mim, a quem a vida deu muito e da qual pouco espero.

Mas para os que fazem, até por vezes negando, os que fazem de mim um degrau rumo ao futuro.

Degrau que já não se sente forte para dar-lhes o impulso adiante, mas que não será fraco de romper sem barulho, sem que que cada fibra que lhe resta resista à força dos que tentam vergar o tempo ao contrário.

De muita gente se pode tirar o futuro, Mas certamente de muitos não podem tirar o passado.

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