Soledad Barrett reaparece em novo romance

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As recentes declaração de Michel Temer para o Dia Internacional da Mulher, quando o medíocre lançou coices na intenção de elogio, trazem à tona o nosso novo livro. Nele, Soledad Barrett ressurge entre os militantes socialistas do Recife, linda e terna. A seguir, divulgo algumas linhas sem as descobertas que narro sobre ela, entre os bravos de gerações do Recife.

por Urariano Mota, Vermelho

Na memória, a imagem de Soledad Barrett volta em preto e branco ou sépia. Em uma ampliação fotográfica, o sépia. O preto e branco na penetração de um sonho. Ela é a mulher pretendida por mim e outros militantes naqueles anos. Há um sentimento de delicadeza que nos invade. Eu a vejo no quintal da casa de Marx, em Jaboatão. Cheia de uma beleza que não desejava chamar atenção, me ocorreu. Então ninguém podia imaginar que a visão das suas pernas, que ela nos furtava com túnicas, calças jeans, saias longas, cobriam o trauma de cruzes nazistas em cicatriz, gravadas à força em suas coxas no Uruguai. No entanto, a aparência de pudor era superficial, porque o furto e a negação para os olhos não detinham toda a Soledad, feminina plena do rosto aos seios e pessoa. Há sempre um tom da verdade que busca o núcleo sensível da imagem em sépia. Toca no músculo mais vivo, ponto delicado.

Assim, na noite em que acabamos de ver a comovente recriação de Soledad no palco do teatro, depois que a atriz Hilda Torres entra em transe de passagem em cena, um transe no sentido de aparelho em terreiros de xangô, depois da mágica hora em que Soledad ressurgiu no palco em 2015, lá no café, no pátio do Hermilo Borba Filho, eis que a filha única de Soledad, a sempre jovem e menina Ñasaindy, se aproxima e abraça o velho militante Karl Marx. (Não se espante jamais o leitor que a ficção se misture ao real nestas páginas. Isso não se dá por método ou artifício, apenas é do real vivido e testemunhado.) Então, naquele instante em que converso com Marx, Ñasaindy vem e num ímpeto o abraça. Marx interrompe o que falava e com os olhos rasos d’água lhe diz:

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– Parece que estou abraçando a sua mãe.

Se fosse um poema, talvez a fala acima fosse o verso final. Mas esta é uma narração e o narrador não recebe a misericórdia de ser humano em uma linha. Quero dizer, primeiro do que tudo: quarenta e três anos depois, o abraço da filha, o rosto, o calor da filha reacendeu em Marx a ternura da mulher que fora destruída no corpo, e passaria o futuro próximo vagando, como se fosse alma de mãe desnaturada e terrorista. Em segundo lugar, na reconstrução da vida difícil é dizer o que vem primeiro. Soledad está no quintal da casa de Marx em Jaboatão. Da cozinha ela havia ido até o quintal, e conversa com as companheiras de Marx e Lênin. Sentadas, fazem sapatinhos de tricô para o bebê que ela espera. Dizem das mulheres grávidas que ficam mais belas. Mas junto ao viço natural das cores, nas mulheres que engravidam sem esperança há uma sombra, um olhar que não se detém adiante, que baixa até o chão. Assim foi com Maria, em um subúrbio do Recife, em 1958. Assim é com Soledad, em dezembro de 1972. Ali em Jaboatão, a finura e delicadeza de Soledad eram tidas pelas mulheres do povo como gestos de “moça muito educada”. O que vale dizer, nela existia uma voz que não se elevava, uma atenção absoluta ao que elas lhe diziam, um sorriso à confidência feminina onde se fala solidariedade sem que se pronuncie esse nome. Na beleza daquela estrangeira não viam ameaça, porque Soledad não se insinuava ou se exibia, antes procurava retirar do contato com os homens a coquete da conquista amorosa. Nada de sorrisos descabidos, para se mostrar simpática, o que o vulgo masculino sempre interpreta como um convite. Nada de frases ambíguas, ou de estímulos à corte, ou de se pôr como sexo frágil, para receber tratamento especial. Ali, ainda não sabíamos, mas Soledad vinha de treinamentos pesados de guerrilha em Cuba, onde rejeitara qualquer privilégio , como em 2009 me contaria o ex-guerrilheiro Aton Fon, dentro de um ônibus no Rio de Janeiro. Ele a conhecera em Cuba.

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– Como era Soledad? – eu lhe pergunto.

Fon apoia a cabeça no encosto da cadeira e fecha os olhos.

Eu espero, sorrindo íntimo, que ele fale sobre o encanto lírico das formas da mulher. Mas ele me responde, depois de um silêncio:

– Ela era muito, muito séria.

– Como assim? – pergunto.

– Ela rejeitava qualquer ajuda para o equipamento que carregava. Subindo a serra, ela rejeitava. ‘Eu sou igual ao companheiro’, ela dizia. ‘Eu me viro sozinha’.

– Ela era uma das poucas mulheres no treinamento de guerrilha. Você nunca se enamorou dela? – pergunto.

– Eu nem cogitava.

E por me envergonhar da pergunta, me calo. Mas agora ao vê-la no quintal da casa em Jaboatão, me clivam e me cravam dois pensamentos. O respeito que ela imprime nos homens, ao mesmo tempo que fascina. Numa constatação primária, Soledad é a mulher bela que não mostra as pernas. Há um movimento nas fêmeas que insinua nos joelhos uma leve abertura para o sexo. Nos anos da minissaia, de afirmação feminista, quando as jovens exibem as coxas, Soledad as esconde. É uma atitude que atormentaria os companheiros, se ela não se acompanhasse dos motivos de viver a sua luta, como na seriedade lembrada por Aton Fon. Nela parecia não se inscreverem a maldade e a traição, que se revelariam adiante.

*Do romance inédito “A mais longa duração da juventude”

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